Hoje, acordei pensando: "Último dia útil da semana".
Parei e refleti: Útil, por que?, Útil, pra quem?
Engraçado, convencionamos determinados termos e situações e vamos reproduzindo-as, sem pensar. Reforçando idéias com as quais nem concordamos.
Aí! Lembrei de um artigo de Rubem Alves, que diz:
" Faz tempo preguei uma peça num grupo de cidadãos da terceira idade. Velhos aposentados. Inúteis. Comecei a minha fala solenemente. “Então os senhores e as senhoras finalmente chegaram à idade em que são totalmente inúteis...” Foi um pandemônio. Ficaram bravos. Me interromperam. E trataram de apresentar as provas de que ainda eram úteis. Da sua utilidade dependia o sentido de suas vidas. Minha provocação dera o resultado que eu esperava. Comecei, então, mansamente, a argumentar. “Então vocês encontram sentido para suas vidas na sua utilidade. Vocês são ferramentas. Não serão jogados no lixo. Vassouras, mesmo velhas, são úteis. Já uma música do Tom Jobim é inútil. Não há o que se fazer com ela. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que se parecem mais com as vassouras que com a música do Tom... Papel higiênico é muito útil. Não é preciso explicar. Mas um poema da Cecília Meireles é inútil. Não é ferramenta. Não há o que fazer com ele. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que preferem a companhia do papel higiênico à companhia do poema da Cecília...” E assim fui, acrescentando exemplos. De repente os seus rostos se modificaram e compreenderam... A vida não se justifica pela utilidade. Ela se justifica pelo prazer e pela alegria – moradores da ordem da fruição. Por isso que Oswald de Andrade, no “Manifesto Antropofágico”, repetiu várias vezes “a alegria é a prova dos nove, a alegria é a prova dos nove...”
Nesse aspecto os dias mais úteis pra mim são os sábados e domingos dos quais dedico uma boa parte do tempo às coisas que me dão prazer sem estarem medidas pelo valor do conceito comum de utilidade: meus filhos, minha casa, minha cidade, meus livros, meus CDs, meus filmes. Enfim, nada que garanta a sobrevivência da matéria, do corpo, mas que garante a alegria do espírito e me dá energia pra agüentar o tranco do dia a dia.
É isso: Dia útil, é o dia que dedicamos à viver!
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Última sobrevivente da cela 4
Luiz Antonio Ryff
Morreu, aos 102 anos, Beatriz Bandeira, a última sobrevivente da famosa cela 4 – onde foram presas, na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, as poucas mulheres que participaram da revolta comunista de 1935 no Brasil.
Foi na cela 4 que ficaram confinadas Olga Benário (esposa do líder da intentona, Luiz Carlos Prestes), a futura psicanalista Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck de Castro e as jornalistas Eneida de Moraes e Eugênia Álvaro Moreyra.
Por conta dessa passagem, Beatriz virou personagem de livros como “Memórias do Cárcere”, o relato biográfico de Graciliano Ramos, que também esteve preso por causa da revolta.
Pouco antes, como militante comunista e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), Beatriz conheceu seu marido, Raul, que viria a ser jornalista e secretário de Imprensa do governo João Goulart (1961-1964). Com ele se casou três vezes.
Os dois foram exilados duas vezes. Em 1936, depois da libertação, foram expulsos para o Uruguai. Em 1964, após o golpe militar, receberam abrigo na Iugoslávia e, posteriormente, na França.
Ao regressar ao Brasil, Beatriz continuou a militância política nos anos 70 e 80. Foi uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democráticas, que lutou pelo fim da ditadura no País.
Beatriz nasceu em uma família positivista. Seu pai, o coronel do exército Alípio Bandeira, foi abolicionista. Como militar, trabalhou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e ajudou o Marechal Cândido Rondon na instalação de linhas telegráficas no interior do País e no contato com tribos isoladas – Alípio liderou o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo.
Além de militante política, Beatriz foi poeta (publicou “Roteiro” e “Profissão de Fé”) e professora (foi demitida pelo regime militar da cadeira de Técnica Vocal do Conservatório Nacional de Teatro). Também escreveu crônicas e colaborou para o jornal A Manhã e as revistas Leitura e Momento Feminino. Há dez anos ela contou um pouco de sua história em uma entrevista à TV Câmara.
Beatriz morreu na noite de segunda (dia 2) após um AVC. Foi enterrada no final da tarde de hoje (dia 3) no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Uma nota pessoal
Beatriz Bandeira Ryff era minha avó. Nos últimos anos de sua vida centenária a senilidade tinha lhe tirado totalmente a visão. Ela quase não falava e mal se comunicava com o mundo.
Há uns dez dias, fui visitá-la levado pelo meu filho de 8 anos que queria dar um beijo na “bisa”. Encontramos ela mais presente do que em todas as visitas nos anos anteriores. Chegou a cantarolar algumas músicas que costumava embalar o sono dos netos quando pequenos, como os hinos revolucionários “Internacional”, “A Marselhesa” (embora ela também cantasse obras não políticas, entre elas a “Berceuse”, de Brahms).
Ao me despedir, perguntei-lhe se lembrava o trecho do poema “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, que ela costumava recitar. Ela assentiu levemente com a cabeça e começou, puxando do fundo da memória. Foram suas últimas palavras para mim.
“Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.”
(“Canção do Tamoio”, Gonçalves Dias)
Autor: Luiz Antonio Ryff
transcrita e disponivel em http://serverlinux.revistaoberro.com.br/mailman/listinfo/cartaoberro
Morreu, aos 102 anos, Beatriz Bandeira, a última sobrevivente da famosa cela 4 – onde foram presas, na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, as poucas mulheres que participaram da revolta comunista de 1935 no Brasil.
Foi na cela 4 que ficaram confinadas Olga Benário (esposa do líder da intentona, Luiz Carlos Prestes), a futura psicanalista Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck de Castro e as jornalistas Eneida de Moraes e Eugênia Álvaro Moreyra.
Por conta dessa passagem, Beatriz virou personagem de livros como “Memórias do Cárcere”, o relato biográfico de Graciliano Ramos, que também esteve preso por causa da revolta.
Pouco antes, como militante comunista e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), Beatriz conheceu seu marido, Raul, que viria a ser jornalista e secretário de Imprensa do governo João Goulart (1961-1964). Com ele se casou três vezes.
Os dois foram exilados duas vezes. Em 1936, depois da libertação, foram expulsos para o Uruguai. Em 1964, após o golpe militar, receberam abrigo na Iugoslávia e, posteriormente, na França.
Ao regressar ao Brasil, Beatriz continuou a militância política nos anos 70 e 80. Foi uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democráticas, que lutou pelo fim da ditadura no País.
Beatriz nasceu em uma família positivista. Seu pai, o coronel do exército Alípio Bandeira, foi abolicionista. Como militar, trabalhou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e ajudou o Marechal Cândido Rondon na instalação de linhas telegráficas no interior do País e no contato com tribos isoladas – Alípio liderou o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo.
Além de militante política, Beatriz foi poeta (publicou “Roteiro” e “Profissão de Fé”) e professora (foi demitida pelo regime militar da cadeira de Técnica Vocal do Conservatório Nacional de Teatro). Também escreveu crônicas e colaborou para o jornal A Manhã e as revistas Leitura e Momento Feminino. Há dez anos ela contou um pouco de sua história em uma entrevista à TV Câmara.
Beatriz morreu na noite de segunda (dia 2) após um AVC. Foi enterrada no final da tarde de hoje (dia 3) no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Uma nota pessoal
Beatriz Bandeira Ryff era minha avó. Nos últimos anos de sua vida centenária a senilidade tinha lhe tirado totalmente a visão. Ela quase não falava e mal se comunicava com o mundo.
Há uns dez dias, fui visitá-la levado pelo meu filho de 8 anos que queria dar um beijo na “bisa”. Encontramos ela mais presente do que em todas as visitas nos anos anteriores. Chegou a cantarolar algumas músicas que costumava embalar o sono dos netos quando pequenos, como os hinos revolucionários “Internacional”, “A Marselhesa” (embora ela também cantasse obras não políticas, entre elas a “Berceuse”, de Brahms).
Ao me despedir, perguntei-lhe se lembrava o trecho do poema “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, que ela costumava recitar. Ela assentiu levemente com a cabeça e começou, puxando do fundo da memória. Foram suas últimas palavras para mim.
“Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.”
(“Canção do Tamoio”, Gonçalves Dias)
Autor: Luiz Antonio Ryff
transcrita e disponivel em http://serverlinux.revistaoberro.com.br/mailman/listinfo/cartaoberro
domingo, 1 de janeiro de 2012
Mais um ano se inicia. Com ele esperanças renascem e sonhos são buscados.
Não é diferente pra quem luta por direitos humanos, talvez seja até mais intenso, afinal nossas conquistas nascem do desejo de construir um mundo melhor. E não é um melhor qualquer. É um melhor com igualdade, com garantia de direitos, com respeito à diversidade. Isso contraria tanta gente!
Pra nós não basta ter o sexto PIB mundial, queremos que cada brasileiro (a) usufrua da riqueza produzida no país. Tenha acesso aos serviços públicos sem precisar da mãozinha de um amigo. Que ande na rua e entre nos estabelecimentos sem serem discriminados porque são gays, lésbicas, travestis, cadeirantes, idosos (as), jovens, negros, índios, mulheres, crianças ou porque estão vestidos inadequadamente.
Somos exigentes! Eles dizem que queremos muito. Pra nós parece pouco: Queremos só “ser humanos”.
Em nome dessa aspiração brigamos, reclamamos, somos chatos, indignados, rebeldes. Fomos fisgados pelo vírus da consciência de que somos sujeitos, somos protagonistas e vamos construir nossa história do jeito que queremos.
Incomodamos?
– Muito!!!!! E o que é pior incomodamos até amigos (as), de caminhada inclusive.
Em 2012, é só isso que podemos prometer: Vamos continuar a escrever na nossa pagina desse livro, que continuamos jogando nesse time, que vamos continuar cumprindo nossa parte no jogo. Jogando em função da causa da libertação, pra ajudar nosso time ganhar, não apenas uma partida, mas o campeonato inteiro.
Isso eu me comprometo!
Não é diferente pra quem luta por direitos humanos, talvez seja até mais intenso, afinal nossas conquistas nascem do desejo de construir um mundo melhor. E não é um melhor qualquer. É um melhor com igualdade, com garantia de direitos, com respeito à diversidade. Isso contraria tanta gente!
Pra nós não basta ter o sexto PIB mundial, queremos que cada brasileiro (a) usufrua da riqueza produzida no país. Tenha acesso aos serviços públicos sem precisar da mãozinha de um amigo. Que ande na rua e entre nos estabelecimentos sem serem discriminados porque são gays, lésbicas, travestis, cadeirantes, idosos (as), jovens, negros, índios, mulheres, crianças ou porque estão vestidos inadequadamente.
Somos exigentes! Eles dizem que queremos muito. Pra nós parece pouco: Queremos só “ser humanos”.
Em nome dessa aspiração brigamos, reclamamos, somos chatos, indignados, rebeldes. Fomos fisgados pelo vírus da consciência de que somos sujeitos, somos protagonistas e vamos construir nossa história do jeito que queremos.
Incomodamos?
– Muito!!!!! E o que é pior incomodamos até amigos (as), de caminhada inclusive.
Em 2012, é só isso que podemos prometer: Vamos continuar a escrever na nossa pagina desse livro, que continuamos jogando nesse time, que vamos continuar cumprindo nossa parte no jogo. Jogando em função da causa da libertação, pra ajudar nosso time ganhar, não apenas uma partida, mas o campeonato inteiro.
Isso eu me comprometo!
sábado, 31 de dezembro de 2011
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Um mundo de torturadores: a crueldade dos Estados
Um mundo de torturadores: a crueldade dos Estados
Dos 194 Estados integrantes das Nações Unidas, cem deles praticam regularmente a tortura, seja como meio para obter informações ou confissões, seja como metodologia para fazer reinar o terror. Síria, Egito, Argélia, Chile, Argentina, Brasil, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, China, Vietnã, índia ou Rússia: não há continente que esteja livre dessa barbárie. Esta é a vergonhosa conclusão do informe “Um mundo de torturadores”, publicado na França pela ONG Ação dos Cristãos Contra a Tortura. O artigo é de Eduardo Febbro.
Eduardo Febbro - Página/12
O século XXI segue sendo um mundo de torturadores. Dos 194 Estados integrantes das Nações Unidas, cem deles praticam regularmente a tortura, seja como meio para obter informações ou confissões, seja como metodologia para fazer reinar o terror. Síria, Egito, Argélia, Chile, Argentina, Brasil, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, China, Vietnã, índia ou Rússia: não há continente que esteja livre dessa barbárie. Esta é a vergonhosa conclusão do informe “Um mundo de torturadores”, publicado na França pela organização não-governamental Ação dos Cristãos Contra a Tortura (ACAT).
As vítimas das torturas têm uma identidade comum a todos os países: jornalistas, sindicalistas, opositores políticos, advogados, blogueiros, membros de minorias étnicas ou religiosas, defensores dos direitos humanos, membros de ONGs. O retrato apresentado pela ACAT mostra que, ao invés de recuar, a tortura vem se mantendo em níveis altíssimos, apesar da “reconversão” de muitas ditaduras à democracia liberal. Jean-Etienne de Linares, delegado geral da ong ACAT França, destaca que não restam muitas zonas do mundo em relação às quais seja possível ter ilusões: “queremos acreditar que o uso da tortura é uma prática reservada aos regimes autoritários. Mas estes não têm a exclusividade desses crimes e os principais países reconhecidos como democráticos estão longe de ficar isentos de críticas nessa matéria”.
O mais assombroso reside em que essa prática degradante e assassina nem sequer conta com uma definição coerente. O informe da ACAT recorda que embora “o direito internacional forneça indicações” sobre a tortura (Artigo 16 da Convenção contra a Tortura), “é impossível estabelecer uma distinção nítida entre o que é tortura e o que pode ser considerado como penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Seja como for, o informe da ONG oferece um catálogo universal da crueldade dos Estados.
A queda de regimes como o tunisiano, o egípcio e o do Iêmen, ou as revoltas na Jordânia e Síria permitiram lançar luz sobre as formas pelas quais esses governos torturavam e torturam seus povos. O mesmo ocorre com as grandes “democracias” como a Índia, o Paquistão, o Irã ou com países com alto desenvolvimento econômico como a China: opor-se a qualquer desses poderes, em qualquer escala, significa passar pelo patíbulo da tortura. Nem sequer as revoluções democráticas se salvam desse horror. Um exemplo patético é o da Costa do Marfim, onde os dois lados, o do ditador Laurent Gbagbo e o do suposto democrata Alassame Ouattara, recorreram com igual intensidade à tortura e às execuções primárias.
No que diz respeito à América Latina, o capítulo consagrado ao Chile é um dos mais comprometedores devido ao caráter político da tortura. A investigação da ACAT observa que a mobilização social iniciada em maio de 2011 pela mão dos estudantes se chocou com uma “repressão particularmente violenta por parte das forças da ordem”. O informe assinala que, no Chile, “o fenômeno da tortura perdura contra os militantes dos movimentos de contestação e contra certos povos indígenas como os Mapuches e os Rapa Nuis”.
O Brasil também merece uma péssima menção. Apesar de o país ter adotado os principais instrumentos para prevenir a tortura, esta segue sendo “uma prática rotineira no interior das Forças de Segurança”. O texto da ACAT assegura que “as principais vítimas da tortura no Brasil são os camponeses e os membros das comunidades indígenas que reivindicam o direito á terra, os defensores dos direitos humanos e os jornalistas”. O informe diz que “a tortura segue sendo empregada com total impunidade”, tanto mais na medida em que “o sistema federal não facilita a harmonização das legislações nessa matéria”.
A ACAT destaca o fato de que os mecanismos nacionais necessários para que se aplique a Convenção contra a Tortura “ainda não foram instalados”. Segundo a ONG, os principais atores da tortura são as três polícias de Estado: “polícia civil, polícia federal e polícia militar”. O trabalho da ONG é particularmente crítico com as condições de prisão e detenção nas prisões brasileiras (muito especialmente no Estado do Espírito Santo), qualificadas como “tratamentos cruéis, desumanos e degradantes”.
Peru, Colômbia e Venezuela formam um trio onde a tortura é regularmente utilizada. No Peru, camponeses, indígenas e líderes sociais são objeto de frequentes torturas. Na Colômbia, a “tortura é uma prática generalizada” enquanto que, na Venezuela, “a tortura é de uso corrente no interior dos serviços de segurança do Estado”. Honduras, Cuba e México integram outro trio denunciado pela ACAT. Segundo o informe, a derrubada do presidente Manuel Zelaya deu lugar a “um recrudescimento repentino e massivo da tortura”. Em relação a Cuba, a ACAT sustenta que, apesar das afirmações de Fidel Castro e Raúl Castro, “os maus tratos e as humilhações fazem parte dos métodos de repressão utilizados sistematicamente pelo regime cubano”. Quanto ao México, o informe diz que as primeiras vítimas da tortura são “as pessoas críticas ao governo e aqueles que denunciam os abusos da classe política”.
A Argentina não foi examinada no informe. Mas em uma nota interna, a ACAT aponta a persistência desse ato de barbárie nas mãos da polícia. A ONG escreve que embora “a democracia tenha provocado a interrupção quase total das ações contra os membros da oposição, isso não impediu que a polícia siga recorrendo de forma frequentemente rotineira à tortura como técnica de interrogatório contra os prisioneiros de direito comum”.
Após um percurso horripilante através da geografia mundial da tortura, o informe chega às margens das quatro grandes democracias: Estados Unidos, Espanha, França e Inglaterra. Sobre os EUA, a investigação da ONG recorda as violações dos direitos humanos cometidas fora das fronteiras do país em nome da guerra contra o terrorismo. No entanto, ressalta o mesmo informe, isso “não deve ocultar a situação extremamente preocupante que reina dentro do território norteamericano”. A Espanha figura no quadro pelas condições de prisão, violência contra imigrantes, expulsões com maus tratos e abusos policiais.
A França tampouco escapa: tratamentos indignos e degradantes e inclusive torturas, assim como práticas de uma violência cega contra os imigrantes ilegais foram denunciados numerosas vezes. Quanto a Inglaterra, os casos de tortura se localizam fora do território e se inscrevem no marco da já incongruente luta contra o terror. A queda do muro de Berlim e a desaparição progressiva das ditaduras da América Latina não parecem ter transmitido os ensinamentos sobre os limites do horror. A tortura sede sendo um instrumento do poder e de poder. Os carrascos conservam sempre um grau de impunidade absoluto.
Tradução: Katarina Peixoto
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19306&boletim_id=1089&componente_id=17365
Dos 194 Estados integrantes das Nações Unidas, cem deles praticam regularmente a tortura, seja como meio para obter informações ou confissões, seja como metodologia para fazer reinar o terror. Síria, Egito, Argélia, Chile, Argentina, Brasil, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, China, Vietnã, índia ou Rússia: não há continente que esteja livre dessa barbárie. Esta é a vergonhosa conclusão do informe “Um mundo de torturadores”, publicado na França pela ONG Ação dos Cristãos Contra a Tortura. O artigo é de Eduardo Febbro.
Eduardo Febbro - Página/12
O século XXI segue sendo um mundo de torturadores. Dos 194 Estados integrantes das Nações Unidas, cem deles praticam regularmente a tortura, seja como meio para obter informações ou confissões, seja como metodologia para fazer reinar o terror. Síria, Egito, Argélia, Chile, Argentina, Brasil, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, China, Vietnã, índia ou Rússia: não há continente que esteja livre dessa barbárie. Esta é a vergonhosa conclusão do informe “Um mundo de torturadores”, publicado na França pela organização não-governamental Ação dos Cristãos Contra a Tortura (ACAT).
As vítimas das torturas têm uma identidade comum a todos os países: jornalistas, sindicalistas, opositores políticos, advogados, blogueiros, membros de minorias étnicas ou religiosas, defensores dos direitos humanos, membros de ONGs. O retrato apresentado pela ACAT mostra que, ao invés de recuar, a tortura vem se mantendo em níveis altíssimos, apesar da “reconversão” de muitas ditaduras à democracia liberal. Jean-Etienne de Linares, delegado geral da ong ACAT França, destaca que não restam muitas zonas do mundo em relação às quais seja possível ter ilusões: “queremos acreditar que o uso da tortura é uma prática reservada aos regimes autoritários. Mas estes não têm a exclusividade desses crimes e os principais países reconhecidos como democráticos estão longe de ficar isentos de críticas nessa matéria”.
O mais assombroso reside em que essa prática degradante e assassina nem sequer conta com uma definição coerente. O informe da ACAT recorda que embora “o direito internacional forneça indicações” sobre a tortura (Artigo 16 da Convenção contra a Tortura), “é impossível estabelecer uma distinção nítida entre o que é tortura e o que pode ser considerado como penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Seja como for, o informe da ONG oferece um catálogo universal da crueldade dos Estados.
A queda de regimes como o tunisiano, o egípcio e o do Iêmen, ou as revoltas na Jordânia e Síria permitiram lançar luz sobre as formas pelas quais esses governos torturavam e torturam seus povos. O mesmo ocorre com as grandes “democracias” como a Índia, o Paquistão, o Irã ou com países com alto desenvolvimento econômico como a China: opor-se a qualquer desses poderes, em qualquer escala, significa passar pelo patíbulo da tortura. Nem sequer as revoluções democráticas se salvam desse horror. Um exemplo patético é o da Costa do Marfim, onde os dois lados, o do ditador Laurent Gbagbo e o do suposto democrata Alassame Ouattara, recorreram com igual intensidade à tortura e às execuções primárias.
No que diz respeito à América Latina, o capítulo consagrado ao Chile é um dos mais comprometedores devido ao caráter político da tortura. A investigação da ACAT observa que a mobilização social iniciada em maio de 2011 pela mão dos estudantes se chocou com uma “repressão particularmente violenta por parte das forças da ordem”. O informe assinala que, no Chile, “o fenômeno da tortura perdura contra os militantes dos movimentos de contestação e contra certos povos indígenas como os Mapuches e os Rapa Nuis”.
O Brasil também merece uma péssima menção. Apesar de o país ter adotado os principais instrumentos para prevenir a tortura, esta segue sendo “uma prática rotineira no interior das Forças de Segurança”. O texto da ACAT assegura que “as principais vítimas da tortura no Brasil são os camponeses e os membros das comunidades indígenas que reivindicam o direito á terra, os defensores dos direitos humanos e os jornalistas”. O informe diz que “a tortura segue sendo empregada com total impunidade”, tanto mais na medida em que “o sistema federal não facilita a harmonização das legislações nessa matéria”.
A ACAT destaca o fato de que os mecanismos nacionais necessários para que se aplique a Convenção contra a Tortura “ainda não foram instalados”. Segundo a ONG, os principais atores da tortura são as três polícias de Estado: “polícia civil, polícia federal e polícia militar”. O trabalho da ONG é particularmente crítico com as condições de prisão e detenção nas prisões brasileiras (muito especialmente no Estado do Espírito Santo), qualificadas como “tratamentos cruéis, desumanos e degradantes”.
Peru, Colômbia e Venezuela formam um trio onde a tortura é regularmente utilizada. No Peru, camponeses, indígenas e líderes sociais são objeto de frequentes torturas. Na Colômbia, a “tortura é uma prática generalizada” enquanto que, na Venezuela, “a tortura é de uso corrente no interior dos serviços de segurança do Estado”. Honduras, Cuba e México integram outro trio denunciado pela ACAT. Segundo o informe, a derrubada do presidente Manuel Zelaya deu lugar a “um recrudescimento repentino e massivo da tortura”. Em relação a Cuba, a ACAT sustenta que, apesar das afirmações de Fidel Castro e Raúl Castro, “os maus tratos e as humilhações fazem parte dos métodos de repressão utilizados sistematicamente pelo regime cubano”. Quanto ao México, o informe diz que as primeiras vítimas da tortura são “as pessoas críticas ao governo e aqueles que denunciam os abusos da classe política”.
A Argentina não foi examinada no informe. Mas em uma nota interna, a ACAT aponta a persistência desse ato de barbárie nas mãos da polícia. A ONG escreve que embora “a democracia tenha provocado a interrupção quase total das ações contra os membros da oposição, isso não impediu que a polícia siga recorrendo de forma frequentemente rotineira à tortura como técnica de interrogatório contra os prisioneiros de direito comum”.
Após um percurso horripilante através da geografia mundial da tortura, o informe chega às margens das quatro grandes democracias: Estados Unidos, Espanha, França e Inglaterra. Sobre os EUA, a investigação da ONG recorda as violações dos direitos humanos cometidas fora das fronteiras do país em nome da guerra contra o terrorismo. No entanto, ressalta o mesmo informe, isso “não deve ocultar a situação extremamente preocupante que reina dentro do território norteamericano”. A Espanha figura no quadro pelas condições de prisão, violência contra imigrantes, expulsões com maus tratos e abusos policiais.
A França tampouco escapa: tratamentos indignos e degradantes e inclusive torturas, assim como práticas de uma violência cega contra os imigrantes ilegais foram denunciados numerosas vezes. Quanto a Inglaterra, os casos de tortura se localizam fora do território e se inscrevem no marco da já incongruente luta contra o terror. A queda do muro de Berlim e a desaparição progressiva das ditaduras da América Latina não parecem ter transmitido os ensinamentos sobre os limites do horror. A tortura sede sendo um instrumento do poder e de poder. Os carrascos conservam sempre um grau de impunidade absoluto.
Tradução: Katarina Peixoto
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19306&boletim_id=1089&componente_id=17365
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Reflexões sobre Direito, Democracia e Sociedade de Consumo.
A sociedade contemporânea é conseqüência de um longo processo de transformação: são as grandes navegações, as ocupações de novos territórios, a revolução industrial, enfim fatos que ensejaram a conquista do solo americano, a ruptura com o sagrado, o domínio da razão, como promessa de superação das limitações.
O avanço na forma de produção, o aumento da produtividade e a conquista de novas tecnologias, fez o ser humano superar uma série de limitações, mas trás, também, a marca da desigualdade, do distanciamento das tradições e da necessidade de dominação e controle. O sistema de produção e reprodução de riquezas, baseado na privatização dos meios de produção, na exploração do ser humano e na degradação dos recursos naturais, não atinge todos, mas submete muito.
Os conflitos de interesses que integram a lógica do novo modelo econômico, e que garantem as conquistas sociais, é impróprio para reprodução do capital, fazendo-se necessário a utilização de mecanismos de dominação tanto no âmbito legal, coercitivo, como na esfera da ideológica e do convencimento. De um lado o direito, aqui entendido como o direito positivado, escrito, se torna um importante instrumento de contenção dos conflitos, criminalizando os comportamentos considerados incoerentes com os parâmetros de sociabilidade.
O direito é usado para coagir revoltas e rebeliões, mas também é utilizado para por limites ao funcionamento do sistema de produção, tendo como fonte a dignidade humana. Nessa segunda dimensão o direito é sempre produto dos ideais libertários advindos de conquistas de lutas históricas e emancipatórias. Assim nasce a democracia, como base de uma nova ordem política, tendo como pressupostos básicos: a igualdade, a liberdade, a independência e a autonomia.
Ocorre que no contexto capitalista a sociedade é um campo de lutas, assim tanto leis, como pensamentos, conceitos e hábitos são objetos de permanentes disputas, nessa arena são estabelecidos valores e comportamentos, que na atualidade tem como foco o consumo. Deste modo é muito importante para o mercado e para reprodução do capital ultrapassar a época da produção para superar as necessidades básicas, para a época do consumo, orientado por desejos.
São criados dispositivos de poder ideológico que não favorecem a autonomia dos sujeitos, que conduz as pessoas, induzindo-as, desde a infância, a terem condutas e necessidades que favoreçam a reprodução do capital, é a sociedade de consumo. Sociedade de sujeitados, não de sujeitos; de induzidos, não de protagonistas. “Uma população de governados”, não de construtores.
Mas, nesse mesmo contexto vive e convive outra ideia em disputa: a da prevalência dos direitos e interesses coletivos, que além de enfrentar as desigualdades objetivas da pobreza, da dificuldade de acesso aos direitos, das discriminações e explorações, tem de disputar uma nova ordem de valores, que superem o individualismo, a apatia, a passividade, que canalize forças para a construção de outro projeto de sociedade e de relações, que garantam o desenvolvimento de “subjetividades amadurecidas”.
E a educação e a comunicação são dois instrumentos importantes, e posso dizer imprescindíveis, no desenvolvimento dessa postura crítica.
Para aprofundar esse tema acesse os Vídeos Democracia e Sociedade de Consumo e Supremacia do Direito sobre a Política, disponíveis no youtube e leiam o livro e Baumen, Zygmunt. Modernidade Líquida, Rio de Janeiro, Jorde Zahar Editor,2001.
A sociedade contemporânea é conseqüência de um longo processo de transformação: são as grandes navegações, as ocupações de novos territórios, a revolução industrial, enfim fatos que ensejaram a conquista do solo americano, a ruptura com o sagrado, o domínio da razão, como promessa de superação das limitações.
O avanço na forma de produção, o aumento da produtividade e a conquista de novas tecnologias, fez o ser humano superar uma série de limitações, mas trás, também, a marca da desigualdade, do distanciamento das tradições e da necessidade de dominação e controle. O sistema de produção e reprodução de riquezas, baseado na privatização dos meios de produção, na exploração do ser humano e na degradação dos recursos naturais, não atinge todos, mas submete muito.
Os conflitos de interesses que integram a lógica do novo modelo econômico, e que garantem as conquistas sociais, é impróprio para reprodução do capital, fazendo-se necessário a utilização de mecanismos de dominação tanto no âmbito legal, coercitivo, como na esfera da ideológica e do convencimento. De um lado o direito, aqui entendido como o direito positivado, escrito, se torna um importante instrumento de contenção dos conflitos, criminalizando os comportamentos considerados incoerentes com os parâmetros de sociabilidade.
O direito é usado para coagir revoltas e rebeliões, mas também é utilizado para por limites ao funcionamento do sistema de produção, tendo como fonte a dignidade humana. Nessa segunda dimensão o direito é sempre produto dos ideais libertários advindos de conquistas de lutas históricas e emancipatórias. Assim nasce a democracia, como base de uma nova ordem política, tendo como pressupostos básicos: a igualdade, a liberdade, a independência e a autonomia.
Ocorre que no contexto capitalista a sociedade é um campo de lutas, assim tanto leis, como pensamentos, conceitos e hábitos são objetos de permanentes disputas, nessa arena são estabelecidos valores e comportamentos, que na atualidade tem como foco o consumo. Deste modo é muito importante para o mercado e para reprodução do capital ultrapassar a época da produção para superar as necessidades básicas, para a época do consumo, orientado por desejos.
São criados dispositivos de poder ideológico que não favorecem a autonomia dos sujeitos, que conduz as pessoas, induzindo-as, desde a infância, a terem condutas e necessidades que favoreçam a reprodução do capital, é a sociedade de consumo. Sociedade de sujeitados, não de sujeitos; de induzidos, não de protagonistas. “Uma população de governados”, não de construtores.
Mas, nesse mesmo contexto vive e convive outra ideia em disputa: a da prevalência dos direitos e interesses coletivos, que além de enfrentar as desigualdades objetivas da pobreza, da dificuldade de acesso aos direitos, das discriminações e explorações, tem de disputar uma nova ordem de valores, que superem o individualismo, a apatia, a passividade, que canalize forças para a construção de outro projeto de sociedade e de relações, que garantam o desenvolvimento de “subjetividades amadurecidas”.
E a educação e a comunicação são dois instrumentos importantes, e posso dizer imprescindíveis, no desenvolvimento dessa postura crítica.
Para aprofundar esse tema acesse os Vídeos Democracia e Sociedade de Consumo e Supremacia do Direito sobre a Política, disponíveis no youtube e leiam o livro e Baumen, Zygmunt. Modernidade Líquida, Rio de Janeiro, Jorde Zahar Editor,2001.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
"Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música
não começaria com partituras, notas e pautas.
Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria
sobre os instrumentos que fazem a música.
Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria
que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas.
Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas
para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes".
Rubem Alves
A ação é produto de um desejo intenso, que nos arranca da acomodação e nos impulsiona a agir, a trabalhar, a alterar as situações, os contextos, enfim a fazer história.
não começaria com partituras, notas e pautas.
Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria
sobre os instrumentos que fazem a música.
Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria
que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas.
Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas
para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes".
Rubem Alves
A ação é produto de um desejo intenso, que nos arranca da acomodação e nos impulsiona a agir, a trabalhar, a alterar as situações, os contextos, enfim a fazer história.
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