pau d´arco

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pau d´arco - UFMA - 2014

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


socializando postagem do face de Paulo Abrão
De Paulo Abrão
Ex-coordenador da Funai na Amazônia, o indigenista José Porfírio Fontenele de Carvalho, 65, vai falar à Comissão da Verdade sobre as mortes de índios no período da ditadura militar. Ele foi testemunha do desaparecimento dos índios waimiri-atroari durante a construção da BR-174. 
A seguir, a Folha, no caderno ‘Poder’, publica depoimento dele: 
“Nasci em Granja (CE). Aos 19 anos, durante a ditadura, fui para Brasília estudar contabilidade na UnB. Tive vários conflitos com os militares. Aquilo foi me chateando. Surgiu um concurso de auditor contábil no Serviço de Proteção do Índio, antes de a Funai ser fundada, em 1967. Fui o primeiro colocado. Em RO, conheci o sertanista Francisco Meirelles. Apareceu um índio nu, com arco e flecha na mão, foi a primeira vez que vi um índio na vida. De noite, pensei: esse povo precisa da minha ajuda. Larguei tudo para trabalhar com os índios. Me especializei nos bravos e valentes. Quando cheguei a Manaus, encontrei o sertanista Gilberto Pinto Figueiredo Costa, ele tinha uns 30 anos. Éramos subordinados aos generais. Nosso contato com os índios waimiri-atroari era para montar postos de defesa. Eles não queriam fazer amizade. Começamos a fazer trocas de presentes: flecha por facão, panela de barro por alumínio. Em 10/1968, os militares contrataram o padre italiano Giovanni Calleri com a missão de amansar os waimiri-atroari para abrir a picada da estrada BR-174. O padre chegou à aldeia atirando de fuzil. Eram 11 pessoas, dez morreram flechadas. Os militares diziam que boicotávamos a obra. Fiquei preso uma semana. Houve outro massacre em outubro de 1974, morreram mais seis pessoas da nossa equipe. Fomos procurar o general Gentil Nogueira Paes, comandante do 2º Grupamento de Engenharia e Construção do Exército. Pedimos para parar a estrada. Ele disse: "Vou construir, mesmo que tenha que matar esses índios assassinos. Dei ordem para meter fogo". Saímos da reunião chorando, os índios não sabiam o que era estrada. Em 21/12/1974, o Gilberto recebeu aposentadoria à revelia. Fui transferido para Altamira [no PA]. Naquele mês vim para Manaus me casar. O Gilberto era o padrinho. Após chamado dos índios, ele deixou o casamento e foi encontrá-los. No dia seguinte, estava morto. A versão dos militares é que encontraram o Gilberto morto. Não vimos o corpo porque o caixão foi lacrado. Não sabemos se ele morreu flechado ou a tiro. Quero que a CNV investigue o que aconteceu com o Gilberto. Quando retornei a Manaus, em 1987, encontrei 375 índios na reserva [antes havia 1.500]. Eles disseram que houve ataques dos soldados. Prefiro que a Comissão apure, sem fazer alarde, e identifique como foram os métodos das mortes dos waimiri-atroari”.

domingo, 30 de dezembro de 2012


vale relembrar 
A VOLTA DE JESUS

 Frei Betto

Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2011. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.

Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Na porta de um teatro, estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século 1, sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros, como fariseus e saduceus.

Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.


Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.

Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs...

Roubaram um carro defronte da faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.

O delegado inquiriu-o:
- Nome?
-  Jesus.
- Jesus de quê?
- Do Pai e do Espírito Santo.

O delegado ditou ao escrivão:

- Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.

A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi liberado.

Saiu pela avenida, de olho nas vitrines das lojas. Todas repletas de enfeites de Natal. Tentou avistar um presépio, os reis magos, uma imagem do Menino Jesus... Viu apenas um velho de barba branca, gordo, com a cabeça coberta por um gorro tão vermelho quanto a roupa que vestia. O menino nascido em Belém havia sido substituído por Papai-Noel. A festa religiosa cedera lugar ao consumismo compulsivo e à entrega compulsória de presentes.

Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:
      - Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar...


Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da natureza!

Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro catador o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.

Tarde da noite, viu defronte de uma igreja. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo. A Missa do Galo se iniciava. Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração do nascimento de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas e se fartarem com a ceia natalina.

Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade. Pelas calçadas, sacos de lixo estufados de embalagens para presentes, caixas de papelão, ossos de frango e peru, cascas de ovos... Observou os moradores de um prédio reunidos no salão do andar térreo. Comiam vorazmente, estouravam garrafas de espumantes, trocavam presentes, abraços e beijos. Nada ali, nenhum símbolo, que lembrasse o significado originário daquela festa.


Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o catador, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias da salame e um refrigerante.

- É pra você comemorar o Natal – disse o homem.

Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:
-                  Ei, cara, tem o que aí?
- Pão, salame e refrigerante.
-Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.

Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.

- Se não importa de beber no mesmo gargalo...

- Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher. - Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.

- Você não tem família?

- Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.
 
- Esta noite de Natal não significa nada pra você?

- Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela,  puxando o lenço de dentro da bolsa.

A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:

- Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?

- Não sei... O que você acha?

- Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.

- Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?

- No meu coração, ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.

- E o que diria a ele?

- Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?

- Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

domingo, 9 de dezembro de 2012

marco passerini: Nenhuma vaga a mais!Pelo rompimento do encarcerame...

marco passerini: Nenhuma vaga a mais!Pelo rompimento do encarcerame...: Nenhuma vaga a mais! Pelo rompimento do encarc eramento em massa e pelo resgate do Estado Social de Direito! Desembarquei agorinha em ...

domingo, 24 de junho de 2012

O GLOBO 23/06/2012 Torturador conta rotina da Casa da Morte em Petrópolis Tenente-coronel reformado fala sobre casa onde 22 pessoas podem ter sido executadas Chico Otávio Juliana Dal Piva Marcelo Remígio Publicado: 23/06/12 - 18h16 Na casa na Rua Arthur Barbosa, em Petrópolis, funcionava aparelho clçandestino do Centro de Informações do Exército (CIE) O Globo / Custódio Coimbra RIO — Depois de cinco horas de conversa, o velho oficial estava livre de um dos mais bem guardados segredos do regime militar: o propósito e a rotina do aparelho clandestino mantido nos anos 1970 pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis, conhecido na literatura dos anos de chumbo como “Casa da Morte”, onde podem ter sido executados pelo menos 22 presos políticos. Passados quase 40 anos, um dos agentes que atuaram na casa, o tenente-coronel reformado Paulo Malhães, de 74 anos, o “Doutor Pablo” dos porões, quebrou o silêncio sobre o assunto. No jargão do regime, revelou Malhães, a casa era chamada de centro de conveniência e servia para pressionar os presos a mudar de lado e virar informantes infiltrados, ou RX, outra gíria dos agentes. O oficial não usa a palavra tortura, mas deixa clara a crueldade dos métodos usados para convencer os presos: — Para virar alguém, tinha que destruir convicções sobre comunismo. Em geral no papo, quase todos os meus viraram. Claro que a gente dava sustos, e o susto era sempre a morte. A casa de Petrópolis era para isso. Uma casa de conveniência, como a gente chamava. As equipes do CIE, afirmou, trabalhavam individualmente, cada qual levando o seu preso, com o objetivo de cooptá-lo. O oficial disse que a libertação de Inês Etienne Romeu, a única presa sobrevivente da casa, foi um erro dos agentes, que teriam sido enganados por ela, acreditando que aceitara a condição de infiltrada. Malhães só não contou o que era feito com os que resistiram à pressão para trair. Diante da pergunta, ficou em silêncio e, em seguida, lembrou que nada na casa de Petrópolis era feito à revelia dos superiores. As equipes relatavam e esperavam pela voz do comando: — Se era o fim da linha? Podia ser, mas não era ali que determinava. Até terça-feira, quando o militar abriu a porteira do sítio na Baixada Fluminense aos repórteres, nenhum dos agentes da casa havia falado sobre ela. O que se sabia era o testemunho de Inês Etienne, colhido em 1971 mas só divulgado em 1979, após o período em que cumpriu pena por envolvimento com a guerrilha da VAR-Palmares. Outras referências ao local apareceram em entrevistas e livros de colaboradores do regime, como o oficial médico Amilcar Lobo, o sargento Marival Chaves (CIE-DF) e o delegado da Polícia capixaba Cláudio Guerra. Sentado ao lado da mulher no alpendre da casa maltratada pelo tempo, Malhães revelou que já pertencia ao Movimento Anticomunista (MAC) quando ingressou nos quadros da repressão. Sua ascensão, iniciada com um curso de técnicas para abrir cadeados, fazer escuta, aprender a seguir pessoas, foi rápida. Após o golpe militar, passou pela 2 Seção (Informações) e pelo Destacamento de Operações de Informações (DOI) do I Exército (RJ) antes de ingressar no Centro de Informações do Exército (CIE), onde passou a perseguir as organizações da luta armada pelo país. ‘Eu organizei o lugar’ A casa de Petrópolis, na Rua Arthur Barbosa 668, Centro, teria sido um trabalho específico de Malhães já dentro do CIE. Ele afirmou que o imóvel, emprestado à repressão pelo então proprietário, Mario Lodders, não era o único aparelho com esse propósito: — Tinha outras. Eu organizei o lugar. Quem eram as sentinelas, a rotina e quando se dava festa para disfarçar, por exemplo. Tinha que dar vida a essa casa. Eu era um fazendeiro que vinha para Petrópolis de vez em quando — contou Malhães, que se recusou a revelar o nome das sentinelas e não se deixou fotografar. Cada oficial, informou, contava com sua própria equipe, que podia incluir cabos, sargentos, policiais federais, delegados ou médicos. De acordo com o coronel, na maioria das vezes, as equipes trabalhavam com um preso de cada vez na casa. Esse seria o motivo alegado por ele para desconhecer o destino de presos citados na lista dos desaparecidos políticos. — Eu trabalhei uns cinco ou seis. Às vezes, passava de um mês com um — explicou. O oficial disse que as táticas para cooptar e formar os infiltrados variavam, e cada um deles era detalhadamente estudado antes da abordagem, tanto sua ideologia como a família. Malhães disse que chegou a ficar preso por 30 dias numa cadeia, disfarçado, em tentativa de arregimentar um RX. Depois que os presos mudavam de posição, eles eram filmados delatando os companheiros. No depoimento sobre os cem dias que passou na casa, Inês Etienne relatou que fingiu ser uma infiltrada e foi filmada contando dinheiro e assinando um contrato com seus algozes. Sobre o destino de alguns nomes de presos, que arquivos ou testemunhas apontam que estiveram na Casa da Morte, ele disse que o ex-deputado federal Rubens Paiva não passou por lá, mas admitiu ter visto Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, comandante da VAR-Palmares desaparecido em fevereiro de 1971. — O Beto talvez tenha conhecido — informou. Questionado novamente se os militantes da luta armada eram assassinados, ele respondeu: — Se ele deu depoimento, mas a estrutura (da organização guerrilheira) não caiu, ele pode ter sofrido as consequências. O coronel reformado disse que, além da garantia de sigilo, era oferecida ajuda financeira aos infiltrados, embora nem todos aceitassem. Uma reunião do PCdoB em São Paulo, afirmou, teria custado R$ 50 mil. Sem fornecer qualquer prova além das declarações, disse que nem todos os desaparecidos teriam morrido no período. — Na lista de desaparecidos tem RX. E muita gente morreu em combate. Desaparecido é um termo forçado. Em combate, tudo pode acontecer. E você não vai achar desaparecido nunca — declarou ele, ao negar as formas conhecidas até aqui para desaparecimento dos corpos. Para o ex-preso político Ivan Seixas, diretor do Núcleo de Preservação da Memória Política, Malhães é fundamental para esclarecer o destino dos desaparecidos: — Ele foi um dos três coordenadores operacionais da repressão, ao lado de Freddie Perdigão Pereira e de Ênio Pimentel Silveira, que já estão mortos. Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/torturador-conta-rotina-da-casa-da-morte-em-petropolis-5300155#ixzz1yieo679d © 1996 - 2012. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

FOLHA DE SÃO PAULO – ILUSTRISSIMA – 29/04/2012 Rebeldia à direita O baixo clero da linha dura no regime militar RESUMO Entre 1964 e 1979, a elite hierárquica das Forças Armadas conviveu com militares contestadores e batalhou para mantê-los longe dos assuntos de Estado durante o regime militar. Livro dedica-se às articulações políticas de coronéis e oficiais de patentes inferiores que formavam a linha dura de extrema direita. GUILHERME BRENDLER Onze anos atrás, recém-formada em história pela Universidade Sorbonne/Paris 1, Maud Chirio veio ao Brasil acompanhar o marido, que faria no Rio parte do doutorado em matemática. Anos depois, em 2004, Maud escolheu a ditadura militar brasileira (1964-85) como objeto de pesquisa para o doutorado que iniciaria na França. Seu trabalho, recém-publicado no Brasil como "A Política nos Quartéis - Revoltas e Protestos de Oficiais na Ditadura Militar Brasileira" [trad. André Telles, Zahar, 264 págs., R$ 49,90] , dedica-se às manifestações e articulações políticas de coronéis e oficiais de patentes inferiores que formavam a linha dura de extrema direita durante o regime. Sob o argumento de manter a integridade das Forças Armadas, apenas a elite hierárquica militar tinha permissão para tomar parte dos assuntos de Estado. A tropa e os oficias de baixa patente deveriam permanecer à distância. Com isso, os generais à frente do poder conviveram, segundo a autora, com duas linhas duras. A primeira, liderada pelo coronel Francisco Boaventura Cavalcanti, articulou-se entre 1964 e 1969. Dedicou-se a ações intelectuais, como textos dissonantes às ações do governo sob o pretexto de "continuar a 'revolução'" e, mais tarde, enveredou na luta contra a distensão. Para dissolver os "revolucionários" contestadores, o governo usou instrumentos de combate à "subversão", punindo 262 militares com o Ato Institucional nº 5 (1968), entre eles Boaventura. A segunda linha dura, apoiada pelo general Sylvio Frota, então ministro do Exército, existiu entre 1974 e 1978 e foi tão anticomunista quanto a primeira, mas mais radical: esteve por trás da repressão policial e da tortura. Maud, 31, conversou por telefone com a Folha. Folha - Por que você se interessou pela política de oficiais durante a ditadura militar? Maud Chirio - Quando vim ao Brasil, tinha acabado de me formar em história. Eu mal sabia que havia existido uma ditadura militar no Brasil, muito menos que tinha sido a primeira e a mais duradoura [do continente]. Sabia das ditaduras chilena e argentina, que eram mais conhecidas na França, mas, por lá, o Brasil não faz parte dos estudos de formação acadêmica. Quando estourou o golpe no Brasil, não havia um imaginário das ditaduras militares latino-americanas na Europa. Não foi identificado de imediato pela mídia e pela classe política francesa como um regime autoritário. Mas, apesar da ausência no imaginário francês, a ditadura sofreu influência militar da França. Do final dos anos 1950 até 1964, as revistas, os boletins e os artigos que os militares brasileiros liam eram de origem francesa. Após o golpe, isso mudou, porque houve uma influência maior dos EUA. O papel mais importante na luta contra a chamada "subversão" vem da teoria francesa, formulada por militares que lutaram em guerras coloniais na Indochina e na Argélia. E essa influência continuou. Um dos principais chefes militares na Argélia e teóricos da repressão foi adido militar no Brasil durante os anos de chumbo. O general [Paul] Aussaresses é um símbolo da permanência de contatos entre esses mundos militares. É possível comparar a perseguição do governo aos coronéis da linha dura àquela empreendida contra os militares de esquerda? A esquerda militar foi muito mais perseguida. No imediato pós-golpe, a repressão focou mais o mundo militar que o civil, o que mudou depois. Apesar de não ter estudado a esquerda militar, minha impressão é que, nos primeiros anos do regime, o governo adotou medidas mais ligadas a pressões da linha dura do que da esquerda militar, porque a esquerda foi reprimida, caçada e retirada do Exército, e a linha dura não. No máximo, havia transferência dos oficiais de extrema direita para quartéis distantes do centro do país. A direita continuou agindo durante muito tempo. Já a esquerda militar foi eliminada. Mesmo assim, a linha dura ganhou espaço após o golpe. O novo regime era contestado pelos próprios militares e houve uma radicalização de setores muito à direita. Esse grupo de oficiais já existia no Brasil antes do golpe e queria uma limpeza do campo, uma luta contra a oposição radical e uma participação no poder. A primeira vitória que tiveram foi o AI-2, promulgado no final de 1965. Era exatamente o que eles exigiam. Mas, ao mesmo tempo, foi uma maneira que [o presidente general Humberto] Castelo Branco encontrou para ter mais autoridade e reprimir os jovens coronéis mobilizados, como Boaventura e Hélio Lemos. Ao adotar o AI-2, Castelo Branco manda todos os coronéis de linha dura para quartéis distantes. Alguns tiveram prisão disciplinar. A dinâmica da radicalização é complexa. Não foi só uma resposta a uma pressão. Foi também uma maneira de os generais terem autoridade para conter reivindicações dos mais novos enquanto construíam um regime repressivo. A busca pela manutenção da hierarquia também motivou a contenção dos ímpetos da extrema direita? Sim, a questão hierárquica foi uma obsessão das altas patentes militares desde o golpe. Castelo Branco criou uma legislação para regular o comportamento dos oficiais e impedir que um general envolvido politicamente ficasse na ativa por muito tempo. Obrigou a passagem para a reserva e limitou o tempo de agregação, ou seja, o afastamento temporário da ativa para exercer cargos eletivos. Foi uma estratégia geral, não só em relação à linha dura. Eles não queriam ser desafiados por inferiores hierárquicos. A cassação do coronel Boaventura e de outros oficiais pelo AI-5 foi interpretada como abuso de poder presidencial e gerou uma sucessão de protestos de militares. Essas punições não foram um tiro no pé? Boaventura foi cassado e não conseguiu prosseguir na carreira militar. Foi punido porque era o líder da primeira linha dura, cassado pelo instrumento que servia para lutar contra a "subversão". Os outros casos são diferentes. [Olímpio] Mourão Filho era general em 1969, e [Afonso Augusto de] Albuquerque Lima era coronel em 1964, mas um pouco mais velho. Os mais novos também foram punidos. Nenhum deles chegou ao generalato, com exceção de Hélio Lemos, que nunca comandou tropas. Houve protestos por causa da punição do Boaventura, mas a primeira linha dura, ativa de 1964 a 1969, foi derrotada politicamente e não conseguiu mais pressionar. Voltou a atuar no final dos anos 1970, na oposição, com a candidatura do general Euler [Bentes] pelo MDB, mas foi derrotada de novo. Então, não foi um tiro no pé, não, porque eles conseguiram condenar esses oficiais à morte política. Mas os militares de linha dura reaparecem durante o governo do general Emílio G. Médici (1969-74). Não foi bem uma volta. Com algumas exceções, não eram os mesmos os integrantes desse grupo, que chamo esse de segunda linha dura da direita radical. É difícil afirmar que existiu uma continuidade entre esses dois movimentos, pois no governo Médici boa parte do primeiro grupo não atuava mais, e alguns que agiram no segundo período não atuaram no momento do golpe. Mas o período Médici é o mais difícil de pesquisar por que existe uma carência enorme de fontes. O que falta para a historiografia explorar mais a ditadura militar? A Comissão da Verdade pode contribuir? Sei que há arquivos grandes e completos fechados, necessários para entender não só repressão, mas a toda a história do regime. São pouco mais de 20 anos da história do Brasil, isso não é nada [em termos históricos]. Diversos historiadores estudam o tema ao mesmo tempo e estamos esgotando os arquivos disponíveis. Precisamos dessa massa de documentos que não foram abertos ainda. A memória individual é imprescindível para historiadores. Os testemunhos que podem ser recolhidos na comissão vão constituir uma fonte fundamental. Não acredito no esquecimento. É bom ter uma visão mais complexa sobre o regime militar, mas só novas fontes e testemunhas podem trazer essas versões para a sociedade e o mundo acadêmico. Você acredita que haja muito material desconhecido sobre o tema? O pesquisador precisa aceitar a falta de acesso a documentos com humildade. Essa pesquisa exigiu energia para reunir fontes espalhadas e pequenas, muitas vezes parciais. Nenhum arquivo foi aberto desde que comecei a escrever a tese. Mas também existem arquivos nos quais nunca tinha pensado que poderiam trazer novidades, e vou começar a consultá-los. Que arquivos são esses? Prefiro não falar antes de saber exatamente o que eles contêm. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/39807-rebeldia-a-direita.shtml

quinta-feira, 29 de março de 2012

DITADURA NUNCA MAIS: POR QUÊ?

Paulo César Carbonari

A história brasileira é marcada por longos períodos de exceção vividos sob ditaduras civis-militares e por breves períodos democráticos. O atual período democrático é o mais duradouro e consistente. Ele sucede, não esqueçamos, a recente ditadura civil-militar que emudeceu o Brasil por 20 anos, de 1º de abril de 1964 a 1985.
Mas, por que ditadura nunca mais? O que cabe a uma democracia que sucede a uma ditadura? Estas não são perguntas. São questões. Por isso, queremos menos responder a elas e mais ajudar a refletir sobre elas.
Ditaduras são formas de organização da vida política que impedem a liberdade, escondem a verdade e obscurecem a memória, comprometendo a justiça. Elas nascem como forma de fazer com que os interesses de grupos se imponham à vontade do conjunto da sociedade. Ditaduras só servem a quem é parte do poder por elas constituído e a quem a ele se alia ou a ele se submete. Não servem ao povo. A rápida descrição parece ser suficiente para ajudar a refletir e a tomar uma posição definitiva: ditadura, nunca!
O povo brasileiro sabe o que significou a ditadura militar nas suas vidas. Famílias que perderam seus filhos ainda esperam para enterrá-los. Pessoas que foram torturadas ainda esperam para poder dizer quem foram seus algozes. Vozes ainda têm dificuldade de dizer com força o que pensam por terem medo de serem reprimidas. A tortura segue sendo prática sistemática em delegacias e presídios Esta é a herança da ditadura. Vítimas que sofreram e ainda sofrem a injustiça, que ainda esperam pela possibilidade de dizer sua palavra e ver a verdade proclamada. Vítimas que ainda esperam por justiça.
Aqui já começamos a enfrentar a segunda questão. Uma das tarefas da democracia é exatamente abrir os arquivos, sejam eles quais forem, estejam eles onde estiverem, e permitir que cada um possa dizer a sua palavra. Abrir um debate público sobre o sentido da história para construir a verdade histórica como expressão da memória coletiva e criar condições para que a justiça ética às vítimas seja feita, não como vingança, mas como reparação, são desafios à democracia. Por isso, só se consolida a democracia se forem criadas condições para que a verdade seja obra da sociedade e que a justiça seja efetiva vida de cada uma e de todas as pessoas. Sem isso, qualquer democracia será uma democracia pela metade. E democracia pela metade não é democracia!
A democracia é preferível a qualquer ditadura não por outro motivo senão porque permite que memória e verdade sejam constitutivas da justiça como realização de condições para a efetivação da dignidade humana. A justiça exige o reconhecimento das injustiças e de suas vítimas, que sofreram a injustiça. Sem isso, a justiça é vazia. Mas, sem que as próprias vítimas possam dizer sua palavra, sua verdade, recorrendo à memória dos fatos que as levaram à situação de vitimização, não há justiça. O querer justiça como memória e verdade das vítimas é um direito das próprias vítimas, mas não só, ele também é de todos os seres humanos, até porque esta é a forma efetiva de engajar a todos/as para que não sejam produzidas novas vítimas. Por isso, o direito à memória, à verdade e à justiça se constitui num dos direitos humanos mais basilares das sociedades democráticas. O nunca mais a todo e qualquer tipo de violação de direitos, a todo tipo situação que produz vitimas, a todo tipo de inviabilização do humano, é a expressão positiva do querer um mundo justo e humanizado para todas e cada uma das pessoas.
Por isso faz sentido a Comissão Nacional da Verdade, criada pela Lei nº 12.528, de 18/11/2011. Ela poderá ser um espaço capaz para construir a verdadeira verdade sobre o período da ditadura civil-militar brasileira e, por outro, para desconstruir algumas das verdades repetidas – nem tão verdadeiras assim – pelos que têm pavor de verdades que não sejam as deles próprios. Ela não terá alcance para fechar o tripé, pois dela não se poderá esperar justiça. Mas, se ela for capaz de produzir verdades com base na memória das vítimas, certamente abrirá caminho para que venha também a justiça. Por isso, ela é um grande recurso para que a democracia gere condições a fim de que, em uníssono, a sociedade brasileira diga: ditadura, nunca mais! Democracia, sempre, e com direitos humanos!
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Doutorando em filosofia (Unisinos), professor de filosofia no IFIBE, ativista de direitos humanos (MNDH/CDHPF).

domingo, 18 de março de 2012

Rumo à reforma agrária

por Frei Betto

Caiu mais um ministro, o do Desenvolvimento Agrário. Nomeado o novo: Pepe Vargas (PT-RS), que foi prefeito de Caxias do Sul por dois mandatos e mantém boas relações com o MST.

A esperança é que a presidente Dilma Rousseff tenha dado o primeiro de três passos urgentes para o Brasil não ficar mal na foto do “concerto das nações”, como diria o Conselheiro Acácio. Os outros dois são o veto ao Código Florestal proposto pelo Senado e uma nova política ambiental e fundiária que prepare bem o país para acolher, em junho, a Rio+20.

A questão fundiária no Brasil é a nódoa maior da nação. Nunca tivemos reforma agrária. Ou melhor, uma única, cujo modelo o latifúndio insiste em preservar: quando a Coroa portuguesa dividiu nossas terras em capitanias hereditárias.

Desde 2008, o Brasil ultrapassou os EUA ao se tornar o campeão mundial de consumo de agrotóxicos. E, segundo a ONU, vem para o Brasil a maioria dos agrotóxicos proibidos em outros países. Aqui são utilizados para incrementar a produção de commodities.

Basta dizer que 50% desses “defensivos agrícolas” são aplicados na lavoura de soja, cuja produção é exportada como ração animal. E o mais grave: desde 1997 o governo concede desconto de 60% no ICMS dos agrotóxicos. E o SUS que aguente os efeitos... nos trabalhadores do campo e em todos nós que consumimos produtos envenenados.

Os agrotóxicos não apenas contaminam os alimentos. Também degradam o solo e prejudicam a biodiversidade. Afetam a qualidade do ar, da água e da terra. E tudo isso graças ao sinal verde dado por três ministérios, nos quais são analisados antes de chegarem ao mercado: Saúde, Meio Ambiente e Agricultura.

É uma falácia afirmar que os agrotóxicos contribuem para a segurança alimentar. O aumento do uso deles em nada fez decrescer a fome no mundo, como indicam as estatísticas.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tenta manter o controle sobre a qualidade dos agrotóxicos e seus efeitos. Mas, quando são vetados, nem sempre consegue vencer as pressões da bancada ruralista sobre outros órgãos do governo e, especialmente, sobre o Judiciário.

A Cúpula Mundial do Meio Ambiente na África do Sul, em 2002, emitiu um documento em que afirma que a produção mundial de alimentos aumentou em volume e preço (devido ao uso de agrotóxicos e sementes transgênicas). À custa de devastação dos solos, contaminação e desperdício da água, destruição da biodiversidade, invasão de áreas ocupadas por comunidades tradicionais (indígenas, clãs, pequenos agricultores etc.). Fica patente, pois, que a chamada “revolução verde” fracassou.

Hoje, somos 7 bilhões de bocas no planeta. Em 2050, seremos 9 bilhões. Se medidas urgentes não forem tomadas, há de se agravar a sustentabilidade da produção agrícola.

Diante desse sinal amarelo, o documento recomenda: reduzir a degradação da terra; melhorar a conservação, alocação e manejo da água; proteger a biodiversidade; promover o uso sustentável das florestas; e ampliar as informações sobre os impactos das mudanças climáticas.

Quanto aos primeiro e terceiro itens, sobretudo, o Brasil marcha na contramão: cada vez mais se ampliam as áreas de produção extensiva para monocultivo, destruindo a biodiversidade, o que favorece a multiplicação de pragas. Como as pragas não encontram predadores naturais, o recurso é envenenar o solo e a água com agrotóxicos. E com frequência isso não dá resultado. No Ceará, uma grande plantação de abacaxi fracassou, malgrado o uso de 18 diferentes “defensivos agrícolas”.

Tomara que o ministro Pepe Vargas consiga estabelecer uma articulação interministerial para livrar o Brasil da condição de “casa da mãe Joana” das multinacionais da insustentabilidade e da degradação do nosso patrimônio ambiental. E acelere o assentamento das famílias sem-terra acampadas à beira de rodovias, bem como a expropriação, para efeito social, de terras ociosas e também daquelas que utilizam mão de obra escrava.

Governo é, por natureza, expressão da vontade popular. E a ela deve servir. O que significa manter interlocução permanente com os movimentos sociais interessados nas questões ambiental e fundiária, irmãs siamesas que não podem ser jamais separadas.

(Frei Betto é frade dominicano, escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser, de Conversa sobre a fé e a ciência (Agir), entre outros livros)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O USO DE DROGAS NO BRASIL.

Vários têm sido os levantamentos para analisar o uso de drogas no Brasil. Alguns de caráter geral, como os “Levantamentos Domiciliares sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil”, em 2001 e 2005, realizados nas 107 maiores cidades brasileiras, abordando pessoas entre 12 a 65 anos, bem como os estudos realizados em 2007 e 2010, “Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira”, realizado em 143 municípios, com pessoas maiores de 18 anos e “Uso de Bebida Alcoólica e outras drogas nas Rodoviárias Brasileiras e outros estudos”, efetivado em rodovias federais das 27 unidades federativas.
Somados aos levantamentos gerais, foram desenvolvidos estudos sobre populações específicas. Em 2003, foi realizado, nas capitais brasileiras, o levantamento com crianças e adolescentes em situação de rua. Em 2004 foi efetivado o “V Levantamento Nacional sobre Uso de Drogas Psicotrópicas entre estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública”, o qual foi estendido para as escolas particulares em 2010. Nesse mesmo ano foi realizado o “I Levantamento Nacional sobre Uso de Álcool, Tabaco e outras drogas entre universitários”.
Os referidos estudos demonstraram que 75% da população já experimentou álcool alguma vez na vida, observando-se, ainda “o consumo de álcool em faixas etárias cada vez mais precoces”. Além de constatar que 22,89% da população já utilizou outras drogas além do álcool e tabaco.
Das drogas ilícitas a maconha, seguida do solvente, foram as mais recorrentes, de acordo com as pesquisas gerais de 2001 e 2005. A maior prevalência de aumento entre as duas pesquisas é ocupada pelos estimulantes (anfitamínicos), mas também fica demonstrado o aumento da utilização de cocaína, crack, anabolizantes, barbitúricos e benzodiazepínicos dentre outros e estabilizado os percentuais de uso da merla.
Fica também demonstrado que 11% da população bebe todos os dias, 28% ingerem álcool de 1 a 4 vezes na semana e 9% são dependentes, isto é, não conseguem cumprir suas obrigações cotidianas devido ao uso do álcool ou a seus efeitos, “passa quase que a totalidade do seu tempo ou sob efeito ...ou para obter a substancia”.
Nas rodovias foi detectado que 25% dos motoristas bebem pesado, ou seja fazem uso do álcool mais de 20 vezes ao mês, apresentando estes, transtornos psiquiátricos.
Entre os estudantes 65% já utilizaram algum tipo de droga na vida, sendo que 11,7% desse segmento social faz uso freqüente (6 ou mais vezes ao mês) e 6,7% faz uso pesado (20 ou mais vezes ao mês) e 12% usam energéticos, que embora não sejam considerada substancia psicotrópica, usado prolongadamente pode causar efeito excitatório. Em relação aos universitários 86,2% já usaram álcool e o índice de uso é mais elevado que na população em geral.
As crianças e adolescentes, entre 10 a 18 anos, em situação de rua, que não moram com a família, 88,6% tinham usado algum tipo de droga, uma mês antes da pesquisa .
Vale ressaltar que todas as taxas são bem inferiores às apresentadas pelas pesquisas realizadas nos EUA, entretanto maiores, em alguns casos aos dados referentes à Colômbia.
Complementarmente é interessante registrar que o nível de apreensão de drogas pela Polícia Federal, em relação à maconha e cocaína permaneceu estável no período de 1998 a 2008, tendo diminuído a apreensão de lança-perfume e aumentado a apreensão dos comprimidos de ecstasy.
Em relação à internações de adultos houve uma diminuição de mais de 37% no período de 1998/2008 (64.702/24001), sendo apontado como uma das principais causas a criação dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad), em 2002.
Dados extraídos do Curso Prevenção do Uso de Drogas em Instituições Religiosas e Movimentos Afins – Fé na Prevenção http://www.fenaprevencao.org.br/senad/course/view.php?id=4

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

o que é ser útil?

Hoje, acordei pensando: "Último dia útil da semana".
Parei e refleti: Útil, por que?, Útil, pra quem?
Engraçado, convencionamos determinados termos e situações e vamos reproduzindo-as, sem pensar. Reforçando idéias com as quais nem concordamos.
Aí! Lembrei de um artigo de Rubem Alves, que diz:
" Faz tempo preguei uma peça num grupo de cidadãos da terceira idade. Velhos aposentados. Inúteis. Comecei a minha fala solenemente. “Então os senhores e as senhoras finalmente chegaram à idade em que são totalmente inúteis...” Foi um pandemônio. Ficaram bravos. Me interromperam. E trataram de apresentar as provas de que ainda eram úteis. Da sua utilidade dependia o sentido de suas vidas. Minha provocação dera o resultado que eu esperava. Comecei, então, mansamente, a argumentar. “Então vocês encontram sentido para suas vidas na sua utilidade. Vocês são ferramentas. Não serão jogados no lixo. Vassouras, mesmo velhas, são úteis. Já uma música do Tom Jobim é inútil. Não há o que se fazer com ela. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que se parecem mais com as vassouras que com a música do Tom... Papel higiênico é muito útil. Não é preciso explicar. Mas um poema da Cecília Meireles é inútil. Não é ferramenta. Não há o que fazer com ele. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que preferem a companhia do papel higiênico à companhia do poema da Cecília...” E assim fui, acrescentando exemplos. De repente os seus rostos se modificaram e compreenderam... A vida não se justifica pela utilidade. Ela se justifica pelo prazer e pela alegria – moradores da ordem da fruição. Por isso que Oswald de Andrade, no “Manifesto Antropofágico”, repetiu várias vezes “a alegria é a prova dos nove, a alegria é a prova dos nove...”

Nesse aspecto os dias mais úteis pra mim são os sábados e domingos dos quais dedico uma boa parte do tempo às coisas que me dão prazer sem estarem medidas pelo valor do conceito comum de utilidade: meus filhos, minha casa, minha cidade, meus livros, meus CDs, meus filmes. Enfim, nada que garanta a sobrevivência da matéria, do corpo, mas que garante a alegria do espírito e me dá energia pra agüentar o tranco do dia a dia.
É isso: Dia útil, é o dia que dedicamos à viver!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Última sobrevivente da cela 4

Luiz Antonio Ryff

Morreu, aos 102 anos, Beatriz Bandeira, a última sobrevivente da famosa cela 4 – onde foram presas, na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, as poucas mulheres que participaram da revolta comunista de 1935 no Brasil.
Foi na cela 4 que ficaram confinadas Olga Benário (esposa do líder da intentona, Luiz Carlos Prestes), a futura psicanalista Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck de Castro e as jornalistas Eneida de Moraes e Eugênia Álvaro Moreyra.

Por conta dessa passagem, Beatriz virou personagem de livros como “Memórias do Cárcere”, o relato biográfico de Graciliano Ramos, que também esteve preso por causa da revolta.

Pouco antes, como militante comunista e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), Beatriz conheceu seu marido, Raul, que viria a ser jornalista e secretário de Imprensa do governo João Goulart (1961-1964). Com ele se casou três vezes.

Os dois foram exilados duas vezes. Em 1936, depois da libertação, foram expulsos para o Uruguai. Em 1964, após o golpe militar, receberam abrigo na Iugoslávia e, posteriormente, na França.

Ao regressar ao Brasil, Beatriz continuou a militância política nos anos 70 e 80. Foi uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democráticas, que lutou pelo fim da ditadura no País.

Beatriz nasceu em uma família positivista. Seu pai, o coronel do exército Alípio Bandeira, foi abolicionista. Como militar, trabalhou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e ajudou o Marechal Cândido Rondon na instalação de linhas telegráficas no interior do País e no contato com tribos isoladas – Alípio liderou o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo.

Além de militante política, Beatriz foi poeta (publicou “Roteiro” e “Profissão de Fé”) e professora (foi demitida pelo regime militar da cadeira de Técnica Vocal do Conservatório Nacional de Teatro). Também escreveu crônicas e colaborou para o jornal A Manhã e as revistas Leitura e Momento Feminino. Há dez anos ela contou um pouco de sua história em uma entrevista à TV Câmara.

Beatriz morreu na noite de segunda (dia 2) após um AVC. Foi enterrada no final da tarde de hoje (dia 3) no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Uma nota pessoal

Beatriz Bandeira Ryff era minha avó. Nos últimos anos de sua vida centenária a senilidade tinha lhe tirado totalmente a visão. Ela quase não falava e mal se comunicava com o mundo.

Há uns dez dias, fui visitá-la levado pelo meu filho de 8 anos que queria dar um beijo na “bisa”. Encontramos ela mais presente do que em todas as visitas nos anos anteriores. Chegou a cantarolar algumas músicas que costumava embalar o sono dos netos quando pequenos, como os hinos revolucionários “Internacional”, “A Marselhesa” (embora ela também cantasse obras não políticas, entre elas a “Berceuse”, de Brahms).

Ao me despedir, perguntei-lhe se lembrava o trecho do poema “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, que ela costumava recitar. Ela assentiu levemente com a cabeça e começou, puxando do fundo da memória. Foram suas últimas palavras para mim.

“Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.”
(“Canção do Tamoio”, Gonçalves Dias)

Autor: Luiz Antonio Ryff
transcrita e disponivel em http://serverlinux.revistaoberro.com.br/mailman/listinfo/cartaoberro

domingo, 1 de janeiro de 2012

Mais um ano se inicia. Com ele esperanças renascem e sonhos são buscados.

Não é diferente pra quem luta por direitos humanos, talvez seja até mais intenso, afinal nossas conquistas nascem do desejo de construir um mundo melhor. E não é um melhor qualquer. É um melhor com igualdade, com garantia de direitos, com respeito à diversidade. Isso contraria tanta gente!

Pra nós não basta ter o sexto PIB mundial, queremos que cada brasileiro (a) usufrua da riqueza produzida no país. Tenha acesso aos serviços públicos sem precisar da mãozinha de um amigo. Que ande na rua e entre nos estabelecimentos sem serem discriminados porque são gays, lésbicas, travestis, cadeirantes, idosos (as), jovens, negros, índios, mulheres, crianças ou porque estão vestidos inadequadamente.

Somos exigentes! Eles dizem que queremos muito. Pra nós parece pouco: Queremos só “ser humanos”.

Em nome dessa aspiração brigamos, reclamamos, somos chatos, indignados, rebeldes. Fomos fisgados pelo vírus da consciência de que somos sujeitos, somos protagonistas e vamos construir nossa história do jeito que queremos.
Incomodamos?

– Muito!!!!! E o que é pior incomodamos até amigos (as), de caminhada inclusive.

Em 2012, é só isso que podemos prometer: Vamos continuar a escrever na nossa pagina desse livro, que continuamos jogando nesse time, que vamos continuar cumprindo nossa parte no jogo. Jogando em função da causa da libertação, pra ajudar nosso time ganhar, não apenas uma partida, mas o campeonato inteiro.

Isso eu me comprometo!